CONSCIÊNCIA NEGRA: Comemorar ou Refletir?

  • 21/nov/2016

CONSCIÊNCIA NEGRA: Comemorar ou Refletir?

A partir de uma análise histórica da conjuntura brasileira, podemos perceber a importância da população negra na construção da nossa sociedade. É importante salientar que, desde o tempo colonial já existia uma categoria intermediária que chamamos de mestiço ou mulato. Diante disto foi criada uma rede sutil e enganadora de barreiras raciais e sociais que até hoje geram ambiguidade e tensão.Quando pesquisamos sobre a vida do negro em nosso país desde que o mesmo foi introduzido como escravo, verificamos que a ele foi relegado sempre o trabalho mais duro, sem condições de sobrevivência, destinado apenas a maximizar os lucros dos europeus e uma vez inválido era descartado.

A abolição da escravatura de fato até hoje não foi concretizada, pois o documento assinado apenas não mais condicionava os negros como escravos. Como consequência disto, a população negra foi descartada pelos senhores das fazendas, ficando assim sem emprego e sem destino. Qual seria a sua identidade? Se não era mais escravo ou que era então? Se não poderia participar das atividades da sociedade urbana, o que poderia fazer? Neste caso, somando-se mais um desafio, o de não ser cidadão.

A incorporação do negro à sociedade de classe ocorreu sem políticas públicas estatais e responsabilidade dos seus antigos senhores. O reconhecimento dos ex-escravos como sujeitos de direitos, conferiu-lhes a imposição de reeducação em homens capazes de disputar o mercado de trabalho. Como dispõe Emília Viotti “a abolição libertou os brancos do fardo da escravidão e abandonou os negros à própria sorte” (VIOTTI DA COSTA, 1999, p. 364)

Infelizmente ainda é presente em nosso país a ideologia do branqueamento, o que o leva a população negra o sentimento de inferioridade ao ver sua identidade: cultura, valor humano, força de trabalho…, menosprezados, e ainda uma tentativa de sua total destruição. Nota-se a intenção da manutenção do negro como classe proletária, novamente escravos, em pleno século XXI. A desigualdade racial é um desafio a ser combatido em nosso país.

Essa discriminação étnica que assola a população brasileira desde seus primórdios é um problema que intensificou negativamente ao longo dos anos. Este fato nos levar ao seguinte questionamento, como esta a inserção do negro no mercado de trabalho nos dias atuais? Infelizmente apesar de inúmeras conquistas que a população negra alcançou, ainda existem entraves que dificultam esse acesso, e sua participação nas posições melhor remuneradas. Tais problemas estão implícitos nas atitudes dos dirigentes e administradores de empresas, onde se detecta um número insignificante dos mesmos nesses ambientes, não sendo destinadas aos negros as áreas do mercado de trabalho de maior status social. Reservando a eles ele apenas a ocupação das áreas de menor remuneração e projeção social.

128 anos após a abolição da escravatura, o abismo social entre brancos e negros ainda é profundo, mesmo com mais de um século da libertação oficial da população negra, ainda estamos diante de problemas sociais graves, demonstrando a presença de vários fatores que impedem essa inserção: problemas históricos, educacionais, governamentais, e ainda o racismo presente em nossa sociedade.

O processo de conquistas da população negra ao longo desses anos vem ocorrendo de forma gradual, dentre elas podemos citar o Dia da Consciência Negra comemorado no dia 20 de novembro, criado em 2003 e instituído em âmbito nacional mediante a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. O povo brasileiro como um todo, deve tomar a criação desta como um fator de extrema importância, um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional, durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país. A mesma lei também tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Nas escolas as aulas sobre os temas: História da África e dos africanos, luta dos negros no Brasil, cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional.

Desta forma, é necessário refletirmos a respeito do conteúdo presente na Constituição Federal de 1988, onde diz que: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. O documento diz, também, que constituem princípios fundamentais da República Federativa do Brasil o de promover o bem comum, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação.

Fica aqui nosso questionamento, diante das disparidades raciais e a das desigualdades sociais enfrentas pela população negra, o dia 20 de novembro ser um dia de comemoração ou de reflexão?

Texto:

Karina Santos da Fonseca, professora da Faculdade UnYLeYa no curso de Pós-Graduação em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1988.

COSTA, Emília Viotti Costa. A Abolição. São Paulo: Global Editora e Distribuidora Ltda. 1982.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classe. São Paulo: Editora Ática, 1978, p. 51.